Palmeiras em jogo contra a equipe do São Bento no Estádio Raulino de Oliveira (Foto: Cesar Greco/Agência Brasil).

No último 23 de março, dois times do Campeonato Paulista de futebol, Mirassol e Corinthians, cruzaram os bigodes no sul do estado do Rio de Janeiro, no estádio Raulino de Oliveira, em Volta Redonda, cidade onde fica a Companhia Siderúrgica Nacional. Dois dias depois, outra partida do Paulistinha, entre São Bento e Palmeiras, aconteceu no mesmo estádio – o estádio que leva o nome do general que durante anos dirigiu a CSN a serviço da ditadura civil-militar.

No gramado do Raulino de Oliveira chegou a ser montado, e já foi desmontado há tempos, o hospital de campanha da pandemia para o sul-fluminense, e nas dependências do estádio funciona a policlínica Bernardino de Souza, que atende pacientes com suspeita de covid.

O Campeonato Paulista no exílio voltarredondense foi arranjado, num “drible negacionista”, pela Federação Paulista de Futebol (FPF), dada a proibição de jogos de futebol no estado de São Paulo, por motivos sanitários. O prefeito de Volta Redonda, Antonio Francisco Neto, negociou na moeda corrente do sofrimento humano: em troca de Volta Redonda ter aceitado ser sede de mais este show que não pode parar, o da bola, a FPF doou ao município 10 respiradores e 10 monitores para montagem de 10 leitos de UTI.

Na época, a professora de Medicina da UFRJ Lygia Bahia disse à CNN Brasil: “é um enorme erro, que será cobrado em vidas humanas que poderiam ser poupadas. Uma estratégia incorreta, não se troca dinheiro por vidas”.

Naquele 23 de março, 15 dias atrás, a bola rolou para Mirassol vs. Corinthians no Raulino de Oliveira mais ou menos no mesmo horário em que saiu o boletim epidemiológico municipal de Volta Redonda. Até aquele dia, a cidade contabilizava 508 mortes por covid-19 desde o início da pandemia, e tinha naquela altura 53 pacientes covid em leitos de tratamento intensivo.

Nesta quarta-feira, 7 de abril, Volta Redonda chegou ao número de 603 mortos por covid-19. A cidade que em um ano enterrou 500 mortos da pandemia levou, agora, apenas duas semanas a mais para enterrar mais quase 100. Isso numa cidade de 270 mil habitantes.

Hoje, são 81 os leitos de UTI ocupados na cidade. Nesta terça, 6, o prefeito Antonio Francisco Neto, que é do DEM, reuniu-se com o deputado federal Felício Laterça, do PSL, a quem pediu intercessão junto ao Ministério da Saúde por ventiladores e monitores para montagem de 30 leitos de UTI e enfermaria na “cidade do aço”.

O futebol é mesmo uma caixinha, ou melhor, um ataúde de surpresas. O que veio da Federação Paulista de Futebol, em troca de vidas, era pouco e se acabou. Quem poderia imaginar?

Nesta terça, à noite, após a reunião com o deputado pesselista, o prefeito Neto apareceu numa live para dizer que vai recorrer de uma decisão judicial que mandou fechar o comércio não essencial de Volta Redonda, e para dizer que a prefeitura vai adotar um “protocolo de tratamento precoce” da covid-19

No mesmo dia, na afiliada da Globo no Sul Fluminense, a TV Rio Sul, Neto disse que “a partir de agora o resultado do covid vai sair em menos de duas horas e todos aqueles que forem positivos já vão sair com todos os medicamentos necessários pra combater o covid”.

Veja o vídeo:

Na noite da última segunda-feira, 5, apenas horas antes de Antonio “Tratamento Precoce” Neto implorar respiradores a um nobre deputado do PSL, o Flamengo atropelou o Madureira por 5 a 1 pelo Campeonato Carioca. O Flamengo não pode jogar na cidade do Rio, onde os jogos agora estão proibidos também. O jogo foi lá, em Volta Redonda, na Arena Genocídio.

“Arena Genocídio”. Uma triste epígrafe para o estádio batizado na ditadura com nome de general mas que ficou conhecido também, na Democracia, como “Estádio da Cidadania”. Bem, mais ou menos. O noticiário esportivo das últimas semanas deu conta de que o Corinthians derrotou o Mirassol no Raulino de Oliveira, que o Palmeiras empatou com o São Bento sempre no Raulino de Oliveira. O outro nome não pegou.

A Democracia, tampouco.

Uma resposta em “Volta Redonda, da ‘Arena Genocídio’, tem UTIs lotadas e 100 mortes por covid em 15 dias”

Comentários estão fechados.