Foto: Isac Nóbrega/PR.

Sob a palavra de ordem de “racionalizar custos”, o Ministério da Saúde se gabou no final de novembro de 2018, ainda sob o governo Temer, às portas do governo Bolsonaro, de assinar um novo contrato de terceirização da distribuição de medicamentos e insumos de saúde que reduziria o que o ministério “gasta” com essa baboseira de R$ 200 milhões por ano para R$ 97 milhões a cada volta que a Terra dá em torno do sol.

O contrato, o tal, foi assinado com a empresa VTC Operadora Logística LTDA. O contrato, o tal, consta na página 34 do “Plano Nacional de Operacionalização da Vacina contra a Covid-19”, apresentado sem datas – e sem vacina – nesta quarta-feira, 16, por Bolsonaro e Pazuello:

“A logística é operacionalizada por meio de uma empresa terceirizada (VTC-LOG)
que presta os serviços de armazenagem e transporte dos Insumos Estratégicos em
Saúde (IES) do Ministério da Saúde. Esta realiza a entrega dos imunobiológicos nas
centrais estaduais de rede de frio das 27 UF”.

Entrega de imunobiológicos nas centrais estaduais da rede de frio? Se a apresentação de Bolsonaro e Pazuello só serviu para confirmar que militares serão vacinados antes que professores, a terceirização da logística de medicamentos e insumos de saúde, como vacinas contra a covid-19, sob o contrato número 59/2018 do Ministério de Saúde informa muito mais.

O contrato 59/2018 do MS com a VTC-LOG começou a valer no dia 9 de julho de 2018 e vai até os mesmos dia e mês de 2023. No fim de outubro de 2018 um lote de vacinas pentavalente, hepatite B, varicela, tríplice viral e antirrábica saiu da Cenadi (Central Nacional de Armazenamento e Distribuição de Imunobiológicos), então localizada no Rio de Janeiro, com destino a São Paulo. Quando chegou em São Paulo, descobriu-se que o lote, avaliado em R$ 15 milhões, estava comprometido, porque fora transportado sob temperatura inadequada.

Temperatura adequada é um ponto nevrálgico para armazenagem e transporte de vacinas contra a covid-19…

VTC-LOG, RT-PCR…

Após a Cenadi ser transferido para São Paulo, é num galpão em Guarulhos operado pela terceirizada VTC-LOG que milhões de testes RT-PCR para detectar infecção pelo novo coronavírus estão mofando à espera da data de vencimento. Estavam, porque a Anvisa acaba de aprovar a extensão de quatro meses dos prazos de validade desses testes. Um dos lotes, com quase 900 mil testes, venceria – mas não vence mais, sabe – na próxima terça-feira, 22, e agora vence só em 22 de abril, descobrimento do Brasil.

Simples assim, tipo “eu não vou tomar a vacina e ponto final”.

Não se avexe não

Semanas antes daquele, digamos, incidente térmico dos fins de 2018 com R$ 15 milhões em vacinas contra a pólio, hepatite, etc, o então presidente eleito desta várzea, o Messias, deparou-se com um protesto na República da Barra da Tijuca, quando voltava ao condomínio do assassino de Marielle Franco, após uma chegada ao banco. Foi o primeiro protesto que Bolsonaro encontrou como presidente eleito.

Na época, a Folha deu:

“Cerca de 20 funcionários terceirizados do Cenadi (Centro Nacional de Armazenamento e Distribuição de Imunobiológicos), que funciona desde 1996 em Triagem, zona norte do Rio e recebe, armazena e distribui vacinas, estenderam faixas de protesto contra a possível mudança da sede”.

A Agência Brasil, também:

“Os funcionários afirmam que a transferência para São Paulo vai criar dificuldades logísticas, pois as análises das vacinas ocorrem na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), sediada no Rio de Janeiro. Eles alegam ainda que a empresa ganhadora da licitação para operar as atividades de São Paulo, chamada Voetur, teve três de seus sócios denunciados pelo Ministério Público Federal (MPF) em janeiro deste ano por pagamento de propina para obterem benefícios e contratos”.

O presidente do grupo Voetur, controladora da VTC-LOG, é Carlos Alberto de Sá, que até anteontem, na qualidade de presidente em exercício da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav) discutia com João Gabbardo, até anteontem secretário-executivo do Ministério da Saúde, não exatamente sobre vacinação, mas sobre política de cancelamentos de viagens aéreas por causa da pandemia de covid-19…

Mas não se avexe não, que o ministro marcial da Saúde, general Pazuello, declarou o seguinte nesta quarta sobre o plano sem datas e sem vacina do governo federal: “pra que essa ansiedade, essa angústia?”.

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