Em maio de 2017, quando ainda não tinha Vaza Jato, Spoofing, Telegram jogado no ventilador, ex-juiz estrelando governo fascista, mas já tinha lawfare contra Lula e impeachment de Dilma temperado por Curitiba, este jornalista publicou no site Justificando um artigo intitulado “Homem astuto que sou, conquistei-vos pela fraude”.

Era sobre Sergio Moro, sobre o paralelo que poderia ser traçado no campo do “espírito dos tribunais” entre os métodos acusatórios da Santa Inquisição e o moderno instituto da delação premiada em sua curitibaníssima versão:

“A quem costuma dar boas-vindas à operação Lava Jato como um belo sinal de progresso, como a engrenagem que trará as maiores mazelas nacionais à luz do dia, seria o caso de indicar a leitura do capítulo sete da seção B da segunda parte do ‘Manual dos Inquisidores’ de Nicolau Eymerich, compêndio de admoestações persecutórias escrito no ano de 1376 de Nosso Senhor, e, portanto, na Idade das Trevas. Naquela passagem desta famigerada cartilha, o obstinado frei dominicano recomenda ameaçar com os rigores da excomunhão e acusar previamente de cumplicidade com as raposas que devastaram as videiras do Senhor ‘quem — Deus nos livre! — negligenciando sua própria salvação, não se curvar às nossas ordens de delação'”.

É um longo, longo artigo. A menção feita no título foi porque…

“… Quando listou os seus truques para tentar provar a fórceps que um herege esteve mancomunado com o demônio, o antigo Inquisidor Geral de Aragão prometeu àqueles juízes mais atentos às suas instruções que, seguindo-as, mais tarde poderiam dizer como o apóstolo: ‘homem astuto que sou, conquistei-vos pela fraude‘”.

Voltei nesta quinta-feira, 4, àquele artigo no Justificando porque também está nele algo que automaticamente me veio à memória ao ler que Sergio Moro foi ao STF estrebuchar que os diálogos de Telegram não provam a inocência de Lula, quando agora não é bem Lula quem está em questão.

Trata-se, o algo, da sina do inquisidor, definida assim por Nilo Batista em seu livro Matrizes Ibéricas do Direito Penal Brasileiro: “para sempre condenado a jamais descobrir a prova do crime ao qual dedicou sua vida, porém torturado ele mesmo pelo dever insaciável de extrair da boca do réu a confissão de sua própria inocência”.

É quase de dar pena… do Inquisidor Geral de Aragão. Sobre o de Curitiba é, na verdade, como pensou com seus botões a Mirtes de João Ximenes Braga. Já de roupa trocada, de saída para dormir em casa, Mirtes percebeu doutor Sergio chorando. Deveria ajudar? Olhou para ele, olhou para Rosângela, viu a adega aberta, girou sobre o calcanhares e escorregou porta afora: “doutor Sergio que lute”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *