Foto: Gilberto Marques.

No primeiro pronunciamento de Bruno Covas como prefeito reeleito de São Paulo, lá estava mais uma vez o jovem Tomás ao lado do pai, uma vez mais usando uma camisa com o desenho e as cores da camisa do Boca Juniors, mas no traje deste “futuro parlamentar” – palavras de João Dória ditas neste domingo, 29, no calor da vitória – lia-se “tucanáticos”.

É que azul e amarelo, cores do Boca, são também as cores do PSDB. Mais o amarelo que o azul, por assim dizer. É que os tucanos são tucanos porque o tucano – pelo menos uma ou duas espécies da família Ramphastides – tem o peito amarelo e, quando da fundação do partido, em 1988, Franco Montoro achou que tucano era um símbolo bom para facilitar a comunicação com o povo e amarelo caia bem porque era a cor-símbolo da campanha das Diretas.

Amarela também é a fase à qual todas as regiões em verde do Plano São Paulo contra o coronavírus regrediram menos de 24 horas após o segundo turno da eleição na capital. Se domingo foi dia de tucano comemorar, nesta segunda o mapa de São Paulo amanheceu amarelo como o peito do tucano-de-bico-verde, ou do araçari-banana, após meses e meses de João Dória abrandando por decreto as medidas contra a disseminação do SarS-Cov-2 no Estado de São Paulo.

Fonte: G1.

Sim, por decreto: ao longo dos últimos meses, se os critérios estipulados para avançar com a flexibilização não batiam, digamos, com o calendário eleitoral, Dória mudava os critérios, por decreto, mais de uma vez, a última delas no último dia 9 de outubro, quando o governo de São Paulo alterou o método de avaliação de internações, mortes e novos casos de covid-19 para que a capital paulista pudesse avançar para a fase verde, com direito a “eventos culturais com o público em pé”. Shows, em bom inglês.

A eleição estava logo ali. O vírus, também. O resultado da farra dos decretos pró-vírus, idem. Os respeitáveis doutores dos Einsteins e Sírios-Libaneses da vida que empoleiram-se com os tucanos em São Paulo, ibidem, como que assinando atestados falsos. Nas últimas semanas, o surto de covid-19 vem se agravando dramaticamente no estado, mas a regressão de fase no âmbito do Plano São Paulo só veio após a festa da vitória do PSDB na capital.

Em meio a tudo isso, a imprensa paulista parecia primeiro muito ocupada com medo de um “radical”, e agora aliviada, para dar à condução pré-eleitoral do Plano São Paulo o nome que ela merece: crime de lesa-humanidade.

No fim da década de 1990, Fernando Henrique Cardoso – que acaba de dizer, após a reeleição de Covas, que Dória precisa “se nacionalizar” para 2022 – torrou bilhões de dólares de reservas internacionais do país porque segurou artificialmente o câmbio para assegurar sua reeleição.

O tempo passa, o tucano voa, o amarelo, cor da prosperidade, nunca sai de moda, ainda mais perto do réveillon. E o PSDB, nas eleições 2020, repete a dose de segurar para assegurar, com uma diferença de arrepiar os cabelos: o que foi, o que está sendo torrado agora mesmo, no estado de São Paulo, pelos “tucanáticos”, a fim de garantir o maior palanque do país para João Dória em 2022, não são reservas cambiais. Não senhora, não senhor.

São vidas humanas.

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