Excelente – e terrível – reportagem de Felipe Pereira publicada nesta sexta-feira, 2, no UOL informa que o segundo maior cemitério de São Paulo, o de Vila Nova Cachoeirinha, está fechado para balanço, entregue pelo menos até o domingo de Páscoa a uma força-tarefa encarregada de liberar mais de mil covas para dar conta da chegada acelerada de mais mortos, os da covid-19.

São 14 funcionários removendo ossadas, farrapos, sapatos e madeira podre de caixão. Numa macabra ironia não do destino, mas de causa e efeito, é o mesmo número de “funcionários” que tinha a task-force da Lava Jato no momento em que ela foi dissolvida, em fevereiro. Uma das integrantes da força-tarefa – a de Curitiba -, a procuradora Jerusa Viecili, admitiu que a operação, ou melhor, a conspiração ajudou a eleger o genocida.

O resultado é que, como conta Felipe Pereira sobre o trabalho da força-tarefa de Vila Nova Cachoeirinha, numa tarde são enchidas três caçambas de terra de cova, desta terra chamada Brasil, onde lua cheia e lanterna ajudam famílias a enterrarem seus mortos noite afora, num tétrico jogo de luzes.

É como se os mortos, a um instante de serem sepultados em noite de lua e lanterna, é como se cantassem uma última canção para o Brasil:

Deus vos salve Lua cheia
Lua brilhante, Lua forte
Não me deixe minguar tanto
Vem clarear minha sorte