Em março do ano passado, o prefeito de Milão, Giuseppe Sala, repercutiu em suas redes sociais um vídeo antiquarentena que tinha como mote “Milão não pode parar”. Naquela altura, o alerta para uma catástrofe já tinha soado na Itália. Um mês depois, a Itália já tinha 10 mil mortos por covid-19, sendo, naquela altura, o país mais castigado pela doença. Quatro mil daqueles mortos deram seu último suspiro em Milão. Foi quando Sala disse à Rai, olimpicamente, que tinha cometido um erro.

Enquanto Giuseppe Sala balbuciava um mea culpa na Itália, no Brasil Jair Bolsonaro ensaiou botar na rua a campanha “O Brasil não pode parar”. Parecia provocação, e era, mas era mais que isso. No fim de março, Luis Roberto Barroso, em liminar, proibiu a veiculação da campanha. No início de abril, Barroso extinguiu as duas ações impetradas no Supremo contra ela, “tendo em vista as informações prestadas pela Presidência da República e pela Advocacia Geral da União no sentido de que a União não pretende deflagrar a campanha”.

A campanha, porém, seguiu e segue, sob outros nomes, como “cloroquina”, “tratamento precoce” e “tratamento não pode ser mais danoso que a doença”. A doença já matou mais de 230 mil pessoas no Brasil, e há semanas já mata, de novo, mais de mil por dia.

Com a doença de novo matando mais de mil por dia, e com uma variante inexplorada do SarS-CoV-2 descendo o Brasil desde Manaus, o país vai reabrindo suas escolas. Neste momento de volta às aulas, o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado do Rio de Janeiro (Sinepe-RJ) achou uma boa ideia reeditar aquele mote que levou a mortes. No último 1º de fevereiro, em nota publicada em suas redes sociais, o Sinepe-RJ saudou assim a volta às aulas: “a pandemia parou o mundo, mas a Educação não pode parar”.

O Sinepe-RJ, para quem não lembra, é a entidade que, numa tentativa de forçar a volta às aulas ainda em julho do ano passado, divulgou naquele mês um vídeo antiquarentena em que se dizia que “os estudos só confundiram”.

Em artigo publicado no último sábado, 6, no jornal O Globo, a microbiologista Natalia Pasternak lembrou que a variante brasileira do coronavírus “ainda não foi testada contra nenhuma vacina, mas têm mutações perigosas em comum com a da África do Sul”. Para os antiquarentena e antiestudos do Sinepe-RJ, quanto mais permanecermos neste escuro com a vaiante P1, melhor, porque o esclarecimento, quando vier, pode não ser bom para os negócios.

“Quanto mais o vírus circular, mais oportunidade de mutação. Se a população for vacinada rapidamente, a circulação pode cair muito, e de forma abrupta, diminuindo a oportunidade do vírus para desenvolver novas formas resistentes. Estamos em uma corrida de vacinas versus vírus. Se bobearmos, o vírus ganha”, alertou Natalia Pasternak.

Mas “a Educação não pode parar” tentou lacrar o Sinepe-RJ, como se lacram os caixões. É, no mínimo, um mau agouro.