Sergio Moro, sócio-diretor da Alvarez & Marsal (Foto: Lula Marques).

Um mês e meio antes de apresentar Sergio Moro como seu mais novo sócio-diretor, a consultoria estadunidense Alvarez & Marsal anunciou a contratação, como sócio-diretor também, de Steve Spiegelhalter, ex-promotor de fraude e corrupção da Unidade da Lei de Práticas de Corrupção no Exterior (FCPA, na sigla em inglês) do Departamento de Justiça dos EUA (DOJ).

No anúncio da contratação de Spiegelhalter, que chega à casa praticamente junto com Moro, a Alvarez & Marsal informa que aquele seu outro novo sócio-diretor, quando atuava no DOJ, “treinou promotores estrangeiros e agentes da lei em técnicas para melhor promover as investigações de corrupção corporativa e individual”.

O currículo de Steve Spiegelhalter dá conta de que ele trabalhou no DOJ ao longo de quatro anos, de janeiro de 2010 a janeiro de 2014. Dois meses depois do fim do ciclo, em março de 2014, começava a Operação Lava Jato no Brasil, com os cumprimentos de agentes da lei e promotores de língua nativa não-inglesa.

Em novembro de 2013, pouco antes da saída de Spiegelhalter do Departamento de Justiça dos EUA (ele pulou para a IBM, depois para a Ernst & Young, e finalmente para a Alvarez & Marsal), aconteceu em Washington a 30ª Conferência Internacional sobre a FCPA. Naquela conferência, o então vice-procurador-geral dos EUA, James Cole, anunciou para até o fim daquele mês uma “sessão de treinamento” anticorrupção do DOJ no Brasil.

É lá, em Washington, que Steve Spiegelhalter já trabalha para a Alvarez & Marsal. É para o escritório da capital, um dos 26 da consultoria só nos EUA, que Sergio Moro deve ir também. Foi precisamente Spiegelhalter, agora “líder da área de Investigações da América do Norte” da A&M, um dos dois entre mais de 600 sócios-diretores da consultoria que se adiantaram em dar publicamente a Moro as boas-vindas à casa, antes da mudança chegar:

“Nos esforçamos para incorporar em nossas investigações a experiência exclusiva de nossos diretores administrativos em termos de regulamentação, processo e aplicação da lei — direcionando o foco no que é importante para os reguladores, aumentando a eficiência e reduzindo custos. A experiência de Sergio como ministro da Justiça e Segurança Pública do Brasil, somado à sua extensa bagagem em anticorrupção, crime do colarinho branco e lavagem de dinheiro, contribuirá para solucionar os problemas dos clientes”.

‘Podem se preparar’

Naquela mesma conferência de novembro de 2013 em Washington, realizada às vésperas do início da Lava Jato em Curitiba, o advogado Oliver Armas, sócio da empresa de auditoria e advocacia estadunidense Hogan Lovells, disse assim, algo misterioso, referindo-se à Lei Anticorrupção sancionada por Dilma naquele ano: “se existem céticos quanto à determinação e os recursos do Brasil para executar essa lei, podem se preparar para mudar de ideia”.

Além do Brasil, Armas citou ainda a Colômbia, a Argentina e o México. Nos anos seguintes, a Hogan Lovells assinou contratos multimilionários com a Petrobras e a Eletrobras para auditorias internas e representações junto ao DOJ relacionadas à Lava Jato. Em julho de 2017, a firma foi contratada também para auditar os contratos da Petróleos Mexicanos (Pemex) com a Odebrecht, sempre na e$teira da “Operation Car Wash”.

Escolha, leitor, a sua favorita, porque são muitas. As coincidências.