A Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure) mantém um “Boletim Diário de Inteligência e Monitoramento”, de caráter dito “confidencial”, com informações obtidas via software “de extrema segurança e discrição”; informações sobre as atividades de partidos políticos, Poder Judiciário, Ministério Público, “movimentos sociais anticristãos” e até da OAB, a fim de “prevenir e combater” ações e movimentações vistas como prejudiciais ao cânone evangélico.

Este monitoramento com jeitão de arapongagem é feito pela equipe do Projeto Soph’iym, idealizado em 2015 pelo Conselho Diretivo Nacional da Anajure, e é “uma das atividades mais estratégicas da associação”. Em 2020, eles, os tais “arapongas”, eram 15 espalhados por todo o Brasil.

A Anajure foi quem requisitou, o ministro Kassio Nunes Marques foi quem atendeu, e de norte a sul da Terra de Santa Cruz organizações religiosas de todas as denominações puderam arreganhar as portas dos seus templos no domingo de Páscoa, no momento em que variantes mais transmissíveis do novo coronavírus varrem o território nacional; em que procura-se vagas em UTIs e morrem três mil por dia de covid-19 no país.

“Gráfico com o volume aproximado de publicações importantes, registradas em boletim e enviadas ao grupo decisório, em cada uma das áreas de monitoramento” em 2020 (Fonte: Anajure).

O Projeto Soph’yim foi mencionado rapidamente em uma matéria sobre a Anajure publicada em outubro de 2020 pela revista Piauí. À revista, o presidente da associação, Uziel Santana, disse na época que “tudo que acontece no país a gente fica sabendo na hora”. Sobre a palavra hebraica soph’iym, a Piauí esclareceu que ela diz respeito aos profetas que alertam o povo sobre os perigos do pecado.

Uma moderníssima versão, portanto, da rede de bedéis, comissários e familiares do Santo Ofício que a inquisição organizou no Brasil no tempos em que este país ainda era formalmente uma colônia.

Em seu mais recente relatório anual de atividades, a Anajure informa que em 2020 as informações compiladas pelo Projeto Soph’iym alimentaram a maior parte das atividades da associação, além de terem sido repassadas a “organizações e instituições parceiras”. E elas, as atividades da Anajure no ano passado, não foram poucas. O relatório tem nada menos que 772 páginas, nas quais a sigla STF aparece 145 vezes.

Consomem longas seis páginas a lista dos processos que correram no Supremo em 2020 e que tiveram atuação na Anajure, seja como parte impetrante, seja como Amicus Curiae. Eles são 30, ao todo, e vão desde uma ADI sobre bullying homofóbico até uma ADPF sobre “material com referência à ideologia de gênero nas escolas”, passando por uma outra Arguição de Descumprimento de Preceito Constitucional, a ADPF 701, contra o decreto de fechamento de igrejas por causa da pandemia na pequenina cidade de João Monlevade, de 80 mil habitantes, localizada no interior de Minas Gerais.

Protocolada pela Anajure em junho de 2020, a ADPF 701 foi justamente aquela que Kassio Nunes Marques apreciou na véspera da Páscoa 2021. Nunes Marques derrubou o decreto monlevadense achado meses e meses atrás pelos arapongas da Anajure/Projeto Soph’iym e estendeu os efeitos da liminar a todo o país, após manifestações de vésperas neste sentido feitas pela Procuradoria Geral da República, onde senta-se Augusto Aras, e da Advocacia Geral da União, onde milita o pastor presbiteriano André Mendonça.

Em tempo, 1: Kassio Nunes Marques é citado três vezes no relatório das atividades da Anajure em 2020. O relatório exalta as “elucidativas palavras” sobre liberdade religiosa proferidas por Marques em votos dados quando ele ainda era desembargador do TRF-1.

Em tempo, 2: No tesão de indisfarçável volume para ser indicado por Bolsonaro à chefia da PGR, Augusto Aras assinou em 2019 uma “Carta de Teses e Princípios aos postulantes ao cargo de Procurador-Geral da República”, documento homofóbico e antiabortista redigido pela Anajure.

Em tempo, 3: André Mendonça, bem, André Mendonça foi um dos palestrantes do 7º Congresso Internacional da Anajure, realizado no dia 29 de outubro de 2020 sob a chancela do Superior Tribunal de Justiça. Mendonça é o nome que o Conselho Diretivo Nacional da Anajure decidiu, por unanimidade, recomendar a Jair Bolsonaro para ser o “terrivelmente evangélico” a ser indicado para o Supremo. Mendonça aparece ainda na lista de professores da “Academia Anajure”, programa “com vistas à formação numa Cosmovisão Cristã aplicada às Ciências Jurídicas”.

Desde o ano passado, um “Observatório das Liberdades Civis Fundamentais”, criado pela Anajure especialmente para atuar na pandemia, já se manifestou formalmente sobre mais de 50 decretos ou outras ações anti-covid por parte de autoridades municipais e estaduais de quase todas as unidades da federação. Damares Alves, Ernesto Araújo e Sergio Moro participaram de lives com Uziel Santana no âmbito deste “observatório”.

No âmbito deste “observatório”, em nome das “liberdades”, a associação vem oficiando estados e municípios de todo o Brasil no rastro da devastação causada pela covid-19, na maioria das vezes tentando derrubar decretos que proíbem atividades religiosas coletivas como parte dos esforços para tentar reduzir a circulação do vírus.

Mas a Anajure foi além: diretores e coordenadores estaduais da associação prepararam no ano passado um “modelo de decreto” estadual para ser distribuído a todos os governadores do Brasil. O modelo prevê desde igrejas sempre abertas, claro, independentemente do tamanho da pilha de mortos, até o detalhe minucioso de que pastores não sejam obrigados a usar máscara durante a pregação…

“Modelo de decreto”, com direito a “o Governador do Estado de xxx, no uso das atribuições que lhe são conferidas…”. É como está no Evangelho Segundo Mateus: “Bem-aventurados aqueles que puserem seus nomes onde está o xis, pois serão chamados filhos de Deus”. 

Modelo de Decreto preparado pela Anajure.