Foto: Ricardo Stuckert.

Tão certo quanto sobe o dólar e cai a bolsa ao sinal de boas notícias para o povo brasileiro – tão certo quanto dois e dois são 2022, por mais que sejam mais de 2.000 os mortos/dia da pandemia no Brasil -, tão certo quanto, dizíamos, é que a mídia corporativa, quando tomada de corporativas preocupações, apregoa que não ela, a mídia, mas a “equipe econômica” é quem não prega mais o olho pra dormir.

É assim, na base de “a prima de um amigo meu está com um problema, sabe?”, que a Folha de S.Paulo reedita neste sábado, 13 como o PT, a imagem de Lula como encarnação do diabo com que a mídia corporativa tenta sulcar a política brasileira pelo menos desde 1989, e que tanto pano já rendeu para estudos semióticos.

Pois os semióticos vão pirar com a manchete deste domingo do jornal, da Folha Online, do e-mail que chega aos assinantes todo dia ainda de madrugada: “Equipe econômica vê risco de efeito Lula influenciar Bolsonaro”.

Entre os “temores” apontados na matéria está “a possível prorrogação do auxílio emergencial se a economia ainda não estiver recuperada ao longo do ano em meio à pandemia do coronavírus”.

A prima de um amigo tem medo do auxílio emergencial.

Então estamos combinados na imagem do dia: para aquela prima do amigo, ou melhor, para a “equipe econômica” – para, nas palavras da Folha, “investidores que temem uma escalada do populismo” – Lula é aquele diabinho sedicioso soprando as piores ideias para o Brasil no ouvido e Jair Bolsonaro, onde grassam portanto ideias melhores. “Comprar vacina na casa da sua mãe”, por exemplo.

E Bolsonaro, nesta iconografia peculiar de mais um sábado de vidas perdidas, não é ele a besta-fera comedora de gente, o cão exterminador; é quem tem a caneta Bic para tocar a agenda do arrocho, e ponto. E no outro ouvido do presidente sopra o anjo da mídia corporativa, da Folha, anjo da guarda dos “investidores”, anjo bom. A imagem que a Folha usa para ilustrar a matéria não deixa mentir. É esta:

Também neste sábado, em editorial, a Folha classifica de “avanço modesto” a aprovação da PEC que, “quando as despesas obrigatórias (com Previdência e pessoal, especialmente) ultrapassarem o patamar de 95% dos desembolsos não financeiros”, estabelece a proibição de reajustes salariais, de concursos públicos e de criação de novos aportes orçamentários obrigatórios pelo Estado brasileiro. Isso como “contrapartida” para que milhões de pessoas tenham pelo menos o pão com margarina garantidos por um novo auxílio emergencial.

E diz, o jornal, que por pouco quem tem a Bic “não sabotou todo o esforço” e que “o presidente Jair Bolsonaro novamente mostrou suas crenças retrógradas ao operar contra a própria equipe econômica”.

Lula é o diabinho. O anjinho é Paulo Guedes. Isto sim é polarização, hein?

Paulo Guedes: “Tamo junto” (Foto: Marcos Corrêa/PR).