Quem aparece com Sergio Moro na imagem que ilustra este artigo é Steve Spiegelhalter, ex-promotor para fraude e corrupção da unidade da Lei de Práticas de Corrupção no Exterior (FCPA, na sigla em inglês) do Departamento de Justiça dos EUA (DOJ). Spiegelhalter foi contratado pela Alvarez & Marsal um mês e meio antes de a Alvarez & Marsal contratar Moro, conforme este Come Ananás informou em dezembro.

O currículo de Steve Spiegelhalter no site da Alvarez & Marsal dá conta de que o doutor “treinou promotores estrangeiros e agentes da lei em técnicas para melhor promover as investigações de corrupção corporativa e individual”.

Terça-feira, 19 de novembro de 2013, vésperas da deflagração da Lava Jato, palavras ditas pelo então procurador-geral adjunto dos EUA, James M. Cole, na 30ª Conferência Internacional sobre a FCPA: “no mês passado, o chefe de nossa unidade FCPA ajudou a liderar uma sessão de treinamento de promotores na Cidade do México e, nesta semana, estamos participando de outra sessão de treinamento, no Brasil”.

Naquela altura, Spiegelhalter era promotor da unidade FCPA (saiu dela para pular para a iniciativa privada em janeiro de 2014). Outro agente da unidade FCPA na época era James M. Koukios, que hoje é sócio-gerente da divisão FCPA + Global Anti-Corruption do escritório internacional de advocacia Morrison & Foerster, cujo acrônimo é um parônimo do antigo titular da 13ª Vara Federal de Curitiba: “MoFo”.

Há menos de uma semana, em 4 de fevereiro, Spiegelhalter, Moro e Koukios participaram, juntos, de um painel sobre “anticorrupção nas Américas” numa “Conferência Virtual de Crime de Colarinho Branco 2021” promovida pela Boston Bar Association.

A imagem que ilustra este artigo foi um convite para aquele colóquio. É que Koukios, que é da MoFo, não chega a aparecer nela. A propósito, outro ex-unidade FCPA que virou funcionário da MoFo chama-se Charles “Chuck” Duross. Apelidado pelo The Washington Post de “Mr. FCPA”, Duross hoje é “monitor de compliance da Odebrecht, parceira da Morrison”.

Nos deram espelhos

Pelo visto, a Alvarez & Marsal não se importou com as mais recentes revelações sobre a “anticorrupção nas Américas”, ou seja, as mais novas provas de que seu mais novo “sócio-diretor” fraudou o processo penal brasileiro e dirigiu um calendário eleitoral clandestino, posto que às fuças de todos os que poderiam fazer algo a respeito, mas nada fizeram. Não se importou, a Alvarez & Marsal, também ela. Que surpresa.

Quatro meses depois daquela sessão de treinamento de promotores feita em novembro de 2013 pelo DOJ no Brasil, portanto em março de 2014, começava em Curitiba a Operação Lava Jato, com os cumprimentos de agentes da lei e promotores de língua nativa inglesa, isto que Moros, Dallagnóides, Jerusas e Paludos no fundo sempre quiseram ver um dia quando cravassem os olhos no espelho. Espelho. No escandaloso escambo internacional que foi a Lava Jato, foi este o verdadeiro “presente da CIA” para Moros, Dallagnóides, Jerusas e Paludos. Em troca, o Brasil.

Em tempo: Spiegelhalter, sobrenome alemão, significa algo como “aquele que segura o espelho”, ou, numa tradução heterodoxa, “aquele que treina promotores estrangeiros”.

Uma resposta em “EUA treinaram promotores no Brasil às vésperas da deflagração da Lava Jato”

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