Os túmulos recém-fechados de Emily e Rebeca, as meninas de 4 e 7 anos mortas em Duque de Caxias com uma bala só (Foto: Rio de Paz).

No início da noite da última sexta-feira, 4, uma mesma bala de fuzil despedaçou o crânio de Emilly, 4 anos de idade, e trucidou o abdômen de Rebeca, 7 anos, na comunidade do Sapinho, em Duque de Caxias, região metropolitana do Rio de Janeiro. As duas meninas eram primas e brincavam juntas na porta da casa da família. Foram enterradas juntas neste sábado, 5, em gavetas vizinhas do cemitério Nossa Senhora das Graças.

“Estava chegando do trabalho e saltei do ônibus. Eu escutei no mínimo dez disparos. O ônibus passou e a Blazer estava parada e deu aquele arranco para sair. Ele parou em frente à rua e simplesmente efetuou os disparos”, disse uma avó de Rebeca à imprensa do Rio.

Há oito meses, no último 12 de abril, Roberta Leite Neves, de 41 anos, e seu filho de dois meses de idade, que ela levava no colo, foram feridos pela mesma bala no Parque das Missões, em Duque de Caxias também, “durante um tiroteio entre a PM e bandidos na Linha Vermelha”. O tiro acertou Roberta no abdômen também, como em Rebeca. No bebê, pegou na perna. Dez dias depois, Roberta morreu no Hospital Municipal Dr. Moacyr Rodrigues do Carmo. O bebê sobreviveu.

“Eles chegaram atirando do nada, foi tudo muito rápido. Mas infelizmente é sempre assim”, contou, na época, um morador do Parque das Missões à imprensa do Rio.

É sempre assim: há três anos, em julho de 2017, Claudinéia Santos Melo, de 29 anos e grávida de 39 semanas, prestes a parir, um dia voltava das compras, sempre em uma comunidade, sempre em Duque de Caxias, quando uma “bala perdida” – sempre uma “bala perdida” – atravessou-lhe a região da bacia e, no útero, atravessou o pulmão do seu bebê. Claudinéia sobreviveu. O bebê morreu. Era um menino.

Em nota, a PM disse na ocasião que, ora, “os policiais estavam sendo atacados pelos traficantes” e, reparem, não revidaram os tiros.

Após o duplo homicídio de Emily e Rebeca nesta sexta, em Caxias, A PM do Rio disse que uma viatura patrulhava a área quando os policiais ouviram tiros, sim, mas, reparem, seguiram o patrulhamento sem disparar, no momento das duas mortes de crianças com um tiro só.

“É um tiro só”, disse Jair Bolsonaro em outubro de 2017, nos EUA, quando já era pré-candidato à presidência da República, referindo-se à pistola ultrapotente .50AE : “para nós evitarmos o policial civil, militar, um PRF, ao abater um inimigo, que estava atirando nele, ser condenado por excesso por ter dado mais de dois tiros. Quem sabe no futuro a gente possa botar essa arma para ser usada no Brasil? É um tiro só. Um saco de cimento no peito do bandido”.

No peito do bandido; no crânio de Emily, não importa o calibre; no abdômen de Rebeca, no abdômen da Roberta e na perninha do seu bebê; no útero da Claudinéia e no pulmão de… Era um menino e ia se chamar Arthur. “É sempre assim”.

Quase um ano depois, em setembro de 2018, às vésperas do primeiro turno das eleições, Paulo Guedes foi perguntado numa reunião com “investidores” sobre como é que ia ser o negócio no segundo turno, com todos contra Bolsonaro. Guedes respondeu que tinha ouvido do ex-capitão que, ora, melhor assim, porque aí “uma bala só atravessa sete”.

Como faziam, aliás, os membros do Einsatzgruppen, o esquadrão da morte nazista que enfileirava prisioneiros e… você sabe, “uma bala só”, para economizar munição. Na foto abaixo, uma mãe judia segura seu filho em Kiev momentos antes de serem os dois executados por um soldado, com os cumprimentos de Heinrich Himmler. E vai ver Himmler dizia à tropa, pensando em mais que economizar: “é um tiro só, tá ok? Pra gente evitar ser acusado de excesso”.