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O Plano São Paulo contra a disseminação da covid-19 vem sendo sistematicamente fraudado pelo próprio governador do Estado, João Dória, que sem maiores pudores vem alterando por decreto, ao longo da pandemia, os critérios do plano ao sabor da demanda política da hora.

Em outubro, por exemplo, às vésperas da eleição em que Dória precisava reeleger Bruno Covas, a capital paulista avançou para a fase verde, com direito a “eventos culturais com o público em pé”, mas não porque houvesse diminuição suficiente de internações, mortes e novos casos da doença. Avançou porque o governo de São Paulo alterou o método de contabilização de internações, mortes e novos casos. Menos de 24 horas após o segundo turno, a cidade regrediu para a fase amarela.

Agora, a imprensa paulista dá conta de que a “presença de aluno na escola estadual será obrigatória após estabilidade de fase amarela em São Paulo. Segundo o secretário de Educação, Rossieli Soares, o Conselho Tutelar poderá ser chamado para o caso de estudantes faltosos”.

Aos pais das classes trabalhadoras, o Conselho Tutelar. Aos pais de crianças matriculadas em escolas particulares, “a opção do ensino remoto para quem ainda não se sente seguro, etc, etc, etc”, não sem assinar um “Termo de Responsabilidade” dizendo que “minha opção de enviar o aluno (a) à escola não está eivada de qualquer coação ou induzimento quanto à retomada das atividades presenciais, não podendo responsabilizar a escola (instituição de ensino) ou o Poder Público por eventual contaminação ou desenvolvimento da COVID-19”.

Aos filhos das classes trabalhadoras não está reservada sequer a hipocrisia embutida em “a pandemia AINDA não acabou”, como se estivesse melhorando; a demagogia traficada em “quem não se sente seguro”, como se a exposição ao vírus fosse uma legítima questão, digamos, de foro íntimo, e às favas com a responsabilidade coletiva de frear a circulação do vírus para poupar vidas humanas e diminuir no que for possível as chances de mutação até que a vacinação em massa dê conta deste trabalho.

O jornal britânico The Guardian informou com exclusividade no último fim de semana que no Reino Unido entre 12 e 15 crianças têm sido internadas todos os dias, todos os dias, desde o início de janeiro com a síndrome inflamatória que pode acometer os mais jovens semanas após terem contraído a covid-19. São cerca de 100 crianças hospitalizadas por semana.

A síndrome pode dar febre alta, dores abdominais, manchas vermelhas pelo corpo, língua inchada, às vezes problemas cardíacos, às vezes mata. Mas, no Brasil, os maiores inimigos da escola agora mesmo enchem a boca para evocar o “direito à Educação”, passando batidos pelo direito à vida.

“Surgiram casos em muitos lugares, mas a maioria ocorreu em Londres e no sudeste da Inglaterra, áreas onde a nova variante do coronavírus causou um aumento acentuado nas infecções”, diz The Guardian.

Ufa. Ainda bem que no Brasil, onde hoje escancararam-se as portas das escolas, ainda bem que no Brasil não surgiu nenhuma nova variante que esteja causando um acentuado aumento nas infecções. E se no dobrar da esquina do tempo São Paulo tiver que internar 100 crianças por semana, por semanas a fio, tudo bem: “estabilidade”.

“Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência”, disse o então ministro do Trabalho da ditadura, Jarbas Passarinho, na reunião que decidiu pela decretação do AI-5, em dezembro de 1968

Menos de um ano depois, em novembro de 1969, Jarbas Passarinho assumiu o Ministério da Educação. Seu nome ainda batiza várias escolas públicas espalhadas pelo Brasil.

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