Foto: New York Times.

O New York Times publicou nesta sexta-feira, 19, uma reportagem sobre como 149 migrantes latino-americanos, crianças inclusive, foram enganados por guardas de fronteira dos EUA e enxotados de surpresa de volta para o México. Muitos, numa mistura de perplexidade, desespero e pobreza, desmaiaram, chorando, quando souberam que estavam, surprise, na metade mexicana da ponte Paso del Norte, que liga El Paso, no Texas, a Ciudad Juarez.

Enquanto isso, mexicanos abastados estão cruzando a fronteira tranquilamente para serem vacinados contra a covid-19 no mesmo Texas e na Flórida, numa “mistura de desespero, urgência e riqueza”.

Leia um trecho da reportagem:

“Onde estamos?” um pai perguntou a um jornalista do The New York Times.

“Ciudad Juárez”, foi a resposta.

O pai, que não havia sido informado pelas autoridades americanas para onde ele e o resto do grupo de migrantes estavam sendo levados, parecia perplexo.

“México”, esclareceu o jornalista.

Rostos contorcidos de confusão e angústia. Muitos pais começaram a soluçar, lágrimas de frustração caindo sobre os filhos que embalavam.

“Eles nos enganaram!”, gritou um dos pais.

“Eles prometeram que nos ajudariam!”, lamentou outro.

A maioria dos 149 imigrantes que foram levados pela ponte na quinta-feira entraram nos EUA vindos de Reynosa, uma cidade fronteiriça no norte do México, onde foram detidos por oficiais da Patrulha de Fronteira. Em seguida, voaram mais de 900 quilômetros para El Paso, no Texas, onde foram colocados em ônibus, levados para a fronteira e conduzidos até a ponte.

Nenhum foi informado de que estava sendo enviado de volta ao México.

Ao cruzarem a ponte que ligava El Paso a Ciudad Juárez, perceberam que tudo o que haviam arriscado em sua jornada – suas vidas, o bem-estar de seus filhos, os empréstimos que haviam feito para atravessar a fronteira dos EUA – estava desmoronando.

Vilma Iris Peraza, 28, lutou para carregar Erick, seu filho de 2 anos, sem calça e com a fralda suja, e sua filha Adriana, 5.

Adriana estava em uma poça de vômito no meio da ponte, enquanto as autoridades mexicanas os cercavam, as tranças que a sra. Peraza tinha feito tão diligentemente no cabelo da filha estavam uma bagunça. A mãe queria que sua filha estivesse com a melhor aparência para sua nova vida na América.

A Sra. Peraza tentou confortar Adriana e lhe dar goles de água enquanto Erick se mexia em seus braços. Por fim, ela desabou na ponte, abraçou os filhos e chorou.

“Não foi possível, meu amor”, disse Peraza ao marido ao telefone, quando finalmente conseguiu se conectar. “Aqui estamos no México, todos chorando. Não sei o que vamos fazer”.

“E fazer o quê? Deixar entrar?”, dirão, como parte de um pacote completo, os luminares exemplares brasileiros do fascismo dos homens bons. Curioso. Não disseram o mesmo – “vai deixar entrar?” – quando, em outubro, o Centro de Controle de Doenças dos EUA abriu um escritório em Brasília para pressionar o desgoverno brasileiro a boicotar a vacina Sputnik V: “health diplomacy“.

A íntegra da reportagem do Times pode ser lida aqui, em inglês.