Luiza Erundina em campanha. (Foto: Leandro Vaz).

Guilherme Boulos foi por várias vezes um forte crítico dos governos Lula e Dilma, principalmente no que diz respeito à relação que os governos Lula e Dilma tiveram com os movimentos sociais, enfraquecendo-os na prática e sentindo, portanto, muito a falta deles quando faltou força para tentar barrar o golpe de 2016.

“Outra governabilidade era possível” é o título de um artigo que Boulos escreveu a quatro mãos com Guilherme Simões, também dirigente do MTST, para o livro “Cinco mil dias: o Brasil na era do lulismo”, organizado por Gilberto Maringoni e Juliano Medeiros.

Os dois Guilhermes terminam aquele artigo criticando o PT por tomar o caminho do pacto com os grupos políticos mais atrasados (“deu no que deu”) em detrimento da politização das pessoas:

“O golpe escancarou o esgotamento desse modelo de governabilidade. Não há mais sequer um centro político para composição parlamentar. A principal força com a qual o PT compôs para sua governabilidade foi seu maior algoz. É preciso aprender com essa lição da história. A reconstrução de um projeto de esquerda passa pela superação da estratégia de conciliação e pela aposta decidida na mobilização popular”.

“Falar é moleza”, alguém poderá dizer, não sem razão. Por outro lado, há quem já tenha visto sinal de “faça o que eu digo e não faça o que eu faço” quando Boulos afirmou, no fim de outubro, que, se eleito, “não esperem de mim demonização do setor privado”.

Mas esses não enxergam direito mesmo ou preferem definitivamente os evangelhos às disputas de poder.

Aliás, menos conciliação com o topo e mais mobilização das bases foi o que fez a vice na chapa de Boulos, Luiza Erundina, quando governou, petista, a cidade de São Paulo de 1989 a 1º de janeiro de 1993. Sobre ter conseguido chegar ao fim daquele mandato, Erundina disse assim um ano atrás, numa entrevista dada à revista Socialismo e Liberdade: “sobrevivemos por contar com sólido apoio popular”.

Pode-se dizer, hoje, a cinco dias do segundo turno, que a frase se aplica à campanha de Boulos e Erundina à prefeitura de São Paulo? Talvez.

O que certamente não se pode dizer de Boulos e do Psol é que já tiveram a chance de mostrarem na prática, na grande administração pública, que são esquerda que aprende com as duras lições da história, busca superar estratégias notoriamente em pandarecos e renova a aposta na mobilização popular.

Um sonho, não? Bem, Boulos e Erundina chegam às vésperas do segundo turno na maior cidade do país beliscando o Covas que se repete como farsa. Um sonho, de fato, uma chance como essa nesse adiantado do estrago fascista. Poucos esperavam por isso. Mas é como disse a octogenária Luiza Erundina naquela entrevista de um ano atrás à revista Socialismo e Liberdade:

“O sonho é um negócio muito forte”.