O gaúcho Átila Rohrsetzer, reservista do Exército de Caxias que foi chefe da Divisão Central de Informações (DCI) do Rio Grande do Sul durante a ditadura civil-militar, deve ser o primeiro repressor brasileiro condenado ao xadrez por violações de Direitos Humanos. Não no Brasil dos repressores autoanistiados, mas na Itália.

Rohrsetzer está sendo processado pela Justiça italiana por participação no sequestro, tortura, assassinato e ocultação do cadáver de um militante montonero ítalo-argentino, Lorenzo Ismael Viñas Gigli, no âmbito da Operação Condor. Gigli foi preso na cidade de Uruguaiana, região da tríplice fronteira, quando tinha 25 anos e uma filha de 20 dias. Sabendo-se alvo de gorilas, tentava fugir para a Itália via Brasil. Foi preso por agentes da ditadura brasileira que depois o entregaram a agentes da ditadura argentina.

O julgamento do arrastado processo contra Rohrsetzer na Itália, iniciado em 2016, deverá acontecer até o fim deste mês, informou o El País nesta quarta-feira, 31, véspera do aniversário de 57 anos do golpe de 1964 no Brasil. A promotoria pede prisão perpétua.

O relatório da Comissão Nacional da Verdade aponta que Átila Rohrsetzer foi um dos mentores do “Dopinha”, local clandestino de tortura instalado pela ditadura no centro de Porto Alegre.

Em março de 2014, o antigo guerrilheiro da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) Bona Garcia contou o seguinte ao Sul21:

“Um major do Exercito, o Átila Rohrsetzer, torturava com brutalidade, batia ouvindo música clássica, falando da mulher e dos filhos. Tinha sempre um médico do lado. O médico me examinava e dizia: ‘Pode bater que este é forte, aguenta’. O choque não deixa a gente nem respirar, nos queima todo. O Átila me deu tanto choque elétrico que fiquei queimado nas orelhas, nas mãos”.

Além de Átila Rohrsetzer, outros três repressores brasileiros foram processados na Itália por violações de Direitos Humanos de cidadãos italianos durante a ditadura brasileira, mas morreram durante o andamento do processo: João Osvaldo Leivas Job, antigo secretário de Segurança do Rio Grande do Sul; Carlos Alberto Ponzi, que chefiou a Agência do Serviço Nacional de Informações (SNI) em Porto Alegre; e Marco Aurélio da Silva Reis, que foi diretor do Departamento de Ordem Política e Social (Dops).

Bona Garcia morreu também, no último 14 de março, de covid-19. Átila Rohrsetzer está bem vivo, com 89 anos, gozando sua aposentadoria no litoral de Santa Catarina, onde mora. Caso seja mesmo condenado à prisão perpétua na Itália, não será deportado. Seguirá livre, o sequestrador e queimador de orelhas, vendo o sol nascer redondo em alguma praia catarinense.

Um detalhe: Lorenzo Ismael Viñas Gigli foi preso em Uruguaiana em 1980. Depois, portanto, da Lei da Anistia, que é de 1979. Outro: Átila Rohrsetzer e outro torturador, este mais notório, Carlos Alberto Brilhante Ustra, foram colegas de turma, a turma de formandos de 1951 da Escola Preparatória de Cadetes de Porto Alegre.

Ídolo de Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão, Ustra foi perguntado em 2014 por Cleidi Pereira, da Gazeta Gaúcha, sobre outro sequestro, este datado de 1978, em Porto Alegre, dos uruguaios Lílian Celiberti e Universindo Díaz:

“O fato de o senhor ser amigo do então delegado e chefe do Dops gaúcho, Pedro Seelig, e do coronel Átila Rohrsetzer, ex-diretor da Divisão Central de Informações, além de estar no RS na época, não passou de coincidência?”.

“Não tem nada a ver”, respondeu Ustra.

Coincidência, portanto.

Naquela mesma entrevista, Ustra contou, pisando em astros e nas fuças das vítimas da ditadura, como eram na época os encontros anuais dos ex-integrantes do DOI-Codi:

“Nos reunimos uma vez por ano, em um determinado lugar, como uma churrascaria. Três quartos dos ex-integrantes já morreram, mas vão os filhos muitas vezes. Alguns estão bem velhinhos, esclerosados. A última vez que fui, em novembro, tinha uns 150. A gente conversa sobre o dia a dia, ninguém mais tem condição de conspirar. É um bando de velhos. Eles fazem questão da minha presença”.

Também em 2014, um certo deputado federal pelo Rio de Janeiro ganhava holofotes nacionais ao “polarizar”, como muitos diriam hoje em dia, com a deputada petista Maria do Rosário.

Se Ustra era “o pavor de Dilma Rousseff”, como o mesmo deputado diria dois anos depois, na sessão do impeachment da torturada, o que acontecia na Argentina após a revogação das leis do Ponto Final e da Obediência Devida era o pavor de Ustra e amigos, da turma da churrascaria, e não apenas deles. Naquele altura, a Argentina já tinha condenado 416 pessoas por crimes de lesa-humanidade cometidos na ditadura, entre militares e civis, de generais a médicos que assistiam sessões de tortura e parteiras que tomaram parte em roubos de bebês. O Chile, 355.

No dia 9 de dezembro de 2014 – quem poderia esquecer? – Bolsonaro disse na tribuna da Câmara que não estupraria Maria do Rosário porque a considerava feia. Maria do Rosário foi uma das maiores responsáveis pela viabilização da Comissão Nacional da Verdade. No dia seguinte àquela sessão na Câmara, a CNV apresentava seu relatório final, com os nomes completos de 377 agentes do Estado que violaram Direitos Humanos na ditadura, dos quais dois terços ainda estavam vivos.

Um deles era o general Leônidas Pires Gonçalves, apontado pela comissão como responsável pelo Massacre da Lapa, contra a cúpula dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), em 1976. O general Leônidas viria a morrer em junho de 2015. O então chefe do Exército Brasileiro, general Eduardo Villas Boas, foi ao funeral e discursou assim:

“Os soldados do seu Exército não consentirão que a retidão de seu caráter e a transcendência de sua alma sejam maculados por versões históricas capciosas”.

Logo depois, em outubro de 2015, morreu Ustra.

Em 2016, o golpe contra Dilma.

Em 2018, Villas Boas, em entrevista à Folha, usou as seguintes palavras para se referir à Comissão Nacional da Verdade: “ridículo”, “desserviço”. Também em 2018, Villas Boas entrou de coturno no lawfare contra Lula, com o famoso tuíte endereçado a Rosa Weber na véspera do julgamento do Habeas Corpus preventivo de Lula no Supremo. Funcionou. Rosa Weber votou contra Lula e contra sua “convicção pessoal”.

Ainda em 2018, em maio, surgiram documentos da CIA que mostraram a cúpula da ditadura brasileira discutindo execuções de opositores em 1974, confirmando a conclusão da CNV de que a cruenta repressão na ditadura era ordem do alto oficialato, e não mera peraltice do “porão”. O então presidente eleito do Clube Militar, Antonio Hamilton Mourão, insurgiu-se, dizendo que os documentos não valiam “um tostão”.

“A quem interessa manchar a reputação das Forças Armadas?”, disse Mourão, na época.

Com 38 mil associados da reserva e da ativa, das três forças armadas, o Clube Militar, por motivos óbvios, foi a principal voz pública e verde-oliva contra a Comissão Nacional da Verdade. Os militares da ativa não poderiam fazê-lo, não ostensivamente, não sob o governo Dilma.

Em novembro de 2018, Mourão, já vice-presidente eleito da República, ainda presidente do Clube Militar, soltou que o Exército comandado por Villas Boas “apoiou sub-repticiamente” Brilhante Ustra, “com documentos”, até sua morte e contra as investidas da CNV. Também ele, Mourão, pisoteando as vítimas da ditadura.

Mourão despontara para o cenário nacional às vésperas e no clima do impeachment de Dilma, evocando um “despertar para a luta patriótica” e articulando homenagens a Ustra. Dilma sacou-o do Comando Militar do Sul.

Mal assumiu a presidência da República, Bolsonaro disse a Villas Boas, em público, que “o que nós já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”.

Isto sim, senhoras e senhores, isto sim é estancar a sangria? Não. “Não tem nada a ver”, como diria Ustra. Bolsonaro e Mourão, também eles, não passaram, não passam de meras coincidências.